A coisas como ela são de perto, ou como sobreviver na cidade

Quero registrar aqui, para quando minha memória começar a se esvaíra, poder deleitar sobre tal fato ocorrido. Por ter passado algumas horas, e ainda por julgar o fato como uma cena de filme tragicômico. Senhores, se por acaso me empolgar, por favor, entendam, são ossos do oficio.
Havia saindo um pouco tarde da universidade, e por julgar a hora tarde e perigosa para se ficar de bobeira pelas ruas do centro, resolvi dar um pique até a Av. Presidente Vargas pagar o ônibus. No ponto muitos ônibus me servem. Peguei o primeiro que passou, no caso o 241, não sou de pegá-lo para voltar, no entanto como não queria ficar mais tempo ali, serviu.
Ao meu lado sentou um rapaz um tanto suspeito, ele parecia esconder algo por de baixo da mochila. Imaginei logo que poderia ser uma arma. Sabia que alguma coisa boa não ia acontecer nesse ônibus. Minha esperaça era que meu ponto logo chegasse.
Pela traseira, subiu um vendedor de amendoim e jujuba, que entregava para os passageiros com um bilhetinho agradecendo a Deus e informando o preço do produto: um real. Não podia ser diferente! Um passageiro a aproximadamente uns 2 ou 3 bancos à minha frente, começou a discutir com o vendedor. Aproveitei isso para começar um contato com o que possivelmente me assaltaria. Julguei isso uma forma de não ser assaltado, me sociabilizando. Mas quando ele tirou a mão por debaixo da bolsa vi que era um celular. O alivio foi completo!
A discussão começou entre o passageiro e o vendedor, Ainda mais quando o vendedor falou: “Ah é? Vamos pra mão então?” A tensão entre os passageiros aumentou com a discussão. As pessoas pediam calma. O rapaz que a pouco achei que ia me assaltar disse: “Tá parecendo aquele filme: Um Dia de Fúria.” E estava mesmo! O homem levandou e gritou para o vendedor de amendoins: “O senhor sabe o que tenho na bolsa?”
Paro só um segundo esta cena. “O senhor sabe o que tenho na bolsa?”, essa frase me remede ao fato peculiar em nossa sociedade um fenômeno: “O senhor sabe com quem está falando?” Na verdade a pessoa não é nada, mas para impor status superior inexistente, uma falsa autoridade e corre eloqüentemente a tal frase. Afinal quem quer mesmo descobrir quem tal pessoa é? No nosso caso, o que se tem na bolsa, num momento tenso desse.
Pela segunda vez o passageiro continuou seu blefe “O senhor sabe o que tenho na bolsa?” e vendedor chamando para mão. Algumas pessoas se levantaram para acalmar a situação. O homem gritava cada vez mais alto. Nos berros o sujeito estava literalmente ganhado a batalha contra o vendedor de amendoim. Num reflexo o vendedor pulou a roleta e pedia seus amendoins de lá. Passamos tudo para frente. Mesmo com vendedor saindo o homem ainda berrava como um animal preste a atacar furiosamente a presa.
Na rua, o vendedor pegou uma pedra para tacar no ônibus metade do ônibus jogou-se ao chão. Mas felizmente tal ato não aconteceu. O desespero continuava no ônibus, o homem ainda aos berros dessa vez com os passageiros. “Eu sou doente! Eu sofro dos Neuvo! Vocês estão me enchendo o saco! É em casa, no trabalho, aqui! #@%&!@*!!!”
Um outro passageiro tentava pedir para se o senhor se acalmar, e dizendo que o cara já saiu. Num estopim as mulheres que estavam na frente levantaram e fora para trás do ônibus aos gritos histéricos: “abre a porta!”, e “eu quero descer!”. Quando ouvi uma voz da frente falar: “O cara ta armado!” Blefe ou não, vendo ou não a arma, eu vou ficar no ônibus? Quando as portas de trás se abriram as pessoas desciam desesperadamente, um homem pulou caindo de costa nas escadas. Uma mulher nervosa batia no meu braço e me empurrava para fora. As pessoas saiam afoitas para fora no ônibus. Uma mulher chegou a cair indo a bolsa para um lado e os saltos a outros.
Do lado de fora, vi o homem que ainda pouco berrava histericamente, com um ladrão na noite, pulou a roleta e saiu do ônibus.
Felizmente não houve tiro, ninguém se feriu. No entanto cada vez mais vemos que estamos vivendo numa sociedade de pessoas doentes e perturbadas. Quero voltar para Nova Gokula!
Let's Talk About Sex? por Angeli
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